Semana Mesa SP – palestra de João Luiz Máximo da Silva

Leia a reflexão apresentada pelo historiador João Luiz Máximo da Silva na abertura do Mesa Tendências, que começou nessa terça-feira, 5 de novembro. O congresso internacional de gastronomia acontece até o dia 8 de novembro como parte do Semana Mesa SP (clique aqui para saber mais sobre o evento).

A ótima fala do professor do Senac gira em torno do tema do evento para 2013: Raízes – de onde viemos e para onde vamos.

 

Onde estão nossas raízes?
João Luiz Máximo da Silva

A Semana Mesa SP propõe nessa edição de 2013 o tema: “Raízes, de onde viemos e para onde vamos”. Falamos muito em raízes, mas a questão que se coloca é: quais são as nossas raízes e o que são raízes? A propósito do termo, em 1936, Sérgio Buarque de Holanda publicou o livro “Raízes do Brasil”, considerado uma obra fundadora e um marco na interpretação do Brasil como nação. Seus colegas contavam que um coronel de Pindamonhangaba, após ler o título da obra teria dito: “Agora até sobre mandioca os intelectuais desta terra andam escrevendo”.

A metáfora das raízes era extremamente útil para refletir sobre nossa formação. Para Sérgio Buarque de Holanda, a ideia de raiz estaria associada à nossa origem, mas vista de forma crítica. O objetivo era analisar os fundamentos de nossa história, com as virtudes e mazelas da sociedade brasileira. Mais de 70 anos após a publicação, podemos dizer que o coronel de Pindamonhangaba tinha razão. Agora estudiosos de várias áreas falam sobre mandioca e outras “raízes” brasileiras. Podemos dizer que aqui temos um feliz encontro. Falamos de raízes no sentido metafórico, mas também no sentido botânico. Afinal uma das bases tradicionais de nossa alimentação é uma raiz: a mandioca.

Segundo o dicionário Aurélio, o sentido figurativo da palavra raiz, significa germe, princípio, origem, vínculo. Mas é nesse sentido que a Semana Mesa SP propõe o tema: “Raízes, de onde viemos e para onde vamos”? O objetivo é discutir nosso passado, nossa origem? Mas a origem é uma miragem e o passado não existe como tal. Não é algo que tenha uma substância em si. Dessa forma, não podemos falar em resgate. Mas se o passado não existe e a origem é uma miragem, o que estamos fazendo aqui?

Segundo o historiador Pierre Nora, o passado é um processo. Por isso, ele está perto, porque não está morto. Outro importante historiador, Eric Hobsbawm, identificou com precisão a importância do passado (ou de nossas raízes) na sociedade contemporânea: “A destruição do passado- ou melhor, dos mecanismos sociais que vinculam nossa experiência pessoal à de gerações passadas- é um dos fenômenos mais característicos e lúgubres do final do século XX. Quase todos os jovens de hoje crescem numa espécie de presente contínuo, sem qualquer relação orgânica com o passado público da época em que vivem.”

Visto dessa forma, não precisamos resgatar nossas raízes, mas sim de nos reconhecermos e reconectarmos com elas. A discussão e valorização de nossa gastronomia talvez seja um caminho. Esse movimento é fundamental para avançarmos, para nosso futuro. Isso significa que não devemos idealizar nossas origens, nossas raízes.

Voltando à botânica, apenas pela semente não podemos definir como será a árvore, outros fatores estão em jogo, como o terreno onde ela será semeada. Isso pode ser estendido também para a história: um homem é mais parecido com seu tempo do que com seus pais. Somos também fruto das circunstâncias. Nossa história é um processo, um jogo entre passado, presente e futuro. Entre tradição e inovação.

Dessa forma, podemos considerar que nossas raízes não estão relacionadas somente aos “índios, portugueses e africanos”. Falamos de um processo dinâmico e conflituoso. Nossa cultura alimentar é fruto desse processo, de trocas, imposições, adaptações e constantes transformações. Essa, talvez seja a nossa maior riqueza. Somos portugueses, índios, africanos, italianos, japoneses, etc. Somos brasileiros. Nossa “raiz” é a mandioca, o milho, mas também o arroz, o dendê, o trigo, etc.

Nesse ponto podemos voltar para a definição da palavra raiz. Além do sentido metafórico, raiz é: “a porção do eixo das plantas superiores que cresce para baixo, em geral dentro do solo e cuja função fundamental é fixar o organismo vegetal e retirar do substrato os nutrientes e a água necessários à vida da planta.” Mais ainda, pode ser uma “raiz engrossada em virtude do acumulo de material nutritivo nela armazenado”. Nossa mandioca possibilitou e sustentou toda uma civilização (sim, nossos índios construíram uma civilização na Amazônia, de onde a mandioca teria se espalhado). Ou seja, ela não está relacionada apenas com a origem e fixação, mas também significa vida. Faz parte do processo de vida da planta e da experiência humana.

E as raízes vegetais (além de eventualmente saborosas e nutritivas) nos dizem mais: elas buscam seus nutrientes penetrando no solo, por caminhos muitas vezes tortuosos. Em nossas cidades, vemos árvores com suas raízes quebrando calçadas, procurando lugares para se enraizarem e se manterem vivas. Nesse caminho, fogem de nossas tentativas de padronizar seu crescimento.
Penso que nossa cultura alimentar tem essa riqueza e diversidade. Nossas raízes estão em toda parte, baseadas em tradições, mas também sujeitas a “contaminações”, trocas, adaptações. Mudança. Se quisermos saber onde estão as “novas” raízes, é só procurar pelos cantos da cidade, aonde grupos de migrantes e imigrantes chegam a todo momento. Os bolivianos, por exemplo, começam a deitar as raízes de sua cultura alimentar em nosso meio, a despeito das dificuldades.

Imagino que o evento da Semana Mesa SP seja um esforço para discutirmos e nos reconhecermos nessa grande diversidade de raízes. E a gastronomia é uma excelente plataforma para entendermos essa riqueza. Nessa perspectiva inovação e tradição são indissociáveis e se alimentam mutuamente.

Finalmente, para onde vamos? Para onde quer que seja, o caminho deve ser orientado pela experiência e perspectiva histórica. Nossa trajetória definirá quais serão os caminhos. Na multiplicidade de discussões que veremos aqui, podemos ter um vislumbre desse futuro. Essa multiplicidade de assuntos e enfoques pode sugerir um entrave, mas é um trunfo.

Assim como os antigos viam o futuro na aparência caótica das entranhas de animais, voos dos pássaros ou da borra de café, podemos também nós, vislumbrar os possíveis caminhos nestes dias da Semana Mesa SP. Trata-se de perceber padrões e tendências a partir desse mosaico.

A nossa vantagem é que ao consideramos passado, presente e futuro como um continuum de nossa existência, estamos aptos não apenas para entender nossa culinária, e vislumbrar o futuro, mas, sobretudo, construí-lo. Esse é o caminho do futuro. Para onde vamos.

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