Resumo do II Seminário Internacional de História da Alimentação e Cultura Material

Trazemos aqui um resumo com alguns dos pontos apresentados e discutidos no II Seminário Internacional de História da Alimentação e Cultura Material: Circulação de Artefatos, Saberes e Fazeres. O evento foi organizado por Leila Mezan Algranti, do Programa de Pós-Graduação em História da Unicamp, e aconteceu entre os dias 3 e 5 de maio de 2017 em Campinas (SP).

A primeira mesa, “Elementos material e cultura alimentar”, privilegiou uma abordagem metodológica, apresentando pesquisas em inventários post-mortem, quadros e manuscritos. Luciana da Silva apresentou texto de Máximo Garcia (Universidad de Valladollid) sobre a quantificação e a classificação dos objetos de cozinhas em inventários e testamentos como um caminho para entender as condições de vida e dos hábitos à mesa no século XVII. Em seguida, Maria Aparecida Borrego (Museu Paulista) falou sobre abastecimento na colonização a partir de quadros e desenhos da época, citando brevemente a presença de alimentos. A mesa foi encerrada por Wanessa Asfora (Unicamp), que mostrou o estudo de caso de um manuscrito de Apício. Em função das diferentes condições de mobilidade e visibilidade recebidas pelo documento ao longo da Idade Média, este foi consumido tanto como peça de ostentação quanto como por seu conteúdo relacionado à medicina (sendo que hoje Apício é bastante valorizado no estudo da história da culinária).

Allen Grieco (The Harvard University Center for Italian Renaissance Studies) apresentou conferência sobre como se entendia que as cores indicavam determinadas características da comida e da bebida ao longo da Idade Média, com base nos preceitos dietéticos da medicina humoral. O pesquisador mostrou como algumas dessas crenças permanecem até hoje, principalmente no consumo de vinhos.

A mesa “Alimentação e manifestações religiosas” foi aberta por Paula Barata Dias (Universidade de Coimbra), que falou da presença da alimentação na relação com os deuses em mitos religiosos. Georgina dos Santos (UFF) mostrou como era na alimentação que os preceitos judaicos sobreviviam entre freiras portuguesas convertidas ao cristianismo na era moderna. Para terminar, Sonia Magalhães (UFG) contou algumas características das comidas da Festa do Divino em Goiás nos séculos XIX e XX, e de como serviam para agradecer aos deuses e para a competição em uma batalha laica pelo poder social.

O segundo dia do evento começou com a mesa “Práticas alimentares e circulação transatlântica de alimentos”. Jaime Rodrigues (USP) mostrou como a literatura de viagem da época colonial registrava usos da mandioca tanto alimentícios, como fazer farinha, quanto para outros fins, como veneno, remédio, etc. Gregorio Saldarriaga (Universidad de Antioquía) argumentou que a quantidade de galinhas possuídas ou dadas como pagamento ao governo apontava o lugar social de índios e espanhóis na Colômbia dos séculos XVI e XVII: o pesquisador mostrou como as galinhas eram onipresentes nos primeiros assentamentos indígenas (enquanto o cultivo do trigo, outro hábito espanhol, era raro), e abriam as portas para outros mercados, como de ferramentas, roupas, etc. Aldair Rodrigues (Unicamp) falou sobre as escravas de origem Mina, e de como essas denominações para os escravos eram imprecisas e mercantis em Mariana (MG) no século XVIII.

José Carlos Vilardaga (USP) abriu a mesa “Alimentação e circulação de produtos nas fronteiras e caminhos” mostrando as rotas de comércio ilegal entre São Paulo, Assunção (Paraguai) e Ciudad Real (Argentina), que eram mediadas pela população indígena e sua produção de erva mate na Serra de Mbaracayu, na virada do século XVII para o XVIII, antes da chegada dos bandeirantes. Já José Newton Coelho Meneses (UFMG) falou sobre a visão da comida dos habitantes de Minas Gerais pelo viajante Auguste de Saint-Hilaire no século XVIII.

Na mesa “Gastronomia e alimentação”, Cilene da Silva Gomes Ribeiro (PUC-PR) comparou as técnicas de conservação presentes nos livros “Cozinheiro Imperial” e “Cozinheiro Nacional”, os primeiros publicados sobre a cozinha brasileira, no século XIX. Maria Henriqueta Gimenes-Minasse (UAM) comparou as duas primeiras edições do Guia 4 Rodas, publicado anualmente entre 1966 e 2014, para discutir como os guias turísticos, por meio de um processo social e histórico, traduzem a realidade local para o visitante, reduzindo o repertório alimentar a algo inteligível e supostamente interessante, o que promove o apagamento de vários pratos e produtos. Carlos Alberto Dória (FAM) aborda como os pratos das classes menos favorecidas viajam, já que não contam com reconhecimento da elite ou visibilidade em livros de receitas. Antes de assumir que coincidências como a entre o locro latino-americano e o pintado baiano – feijão, milho e abóbora cozidos com charque, toucinho e condimentos – são invenções paralelas, o pesquisador mostra como a difusão é apagada com as apropriações políticas e simbólicas das fronteiras nacionais e a fixação de pratos ou produtos como elementos identitários regionais.

A mesa “Vida urbana e comida de rua” contou com a participação de Ana Lucia Duarte Lanna (USP), João Luiz Máximo da Silva (Senac-SP) e Rafaela Basso (Unicamp). Ainda que a apresentação não tenha acontecido em ordem cronológica, foi possível desenhar um cenário que mostra a comida fora de casa nos séculos XVIII, XIX e XX, em São Paulo, e seu consumo como marcador social e identitário. Basso falou sobre as práticas repressoras e normativas para regular a comercialização de comida de rua no Brasil colonial, e de uma tentativa de controlar cada um dos setores responsáveis pelo abastecimento alimentar na cidade, como o que o comércio fixo e o ambulante podiam ou não vender. Máximo mostrou as particularidades do comércio das quitandeiras em São Paulo: ao contrário de Salvador, onde vendiam preparações que remetiam a tradições africanas, e do Rio de Janeiro, onde comercializavam refeições, como o angu, na São Paulo do século XIX essas escravas forras e de ganho vendiam cuscuz de milho, içá torrada e pinhão cozido, por exemplo, “petiscos” que refletiam o gosto dos consumidores locais. Lanna mostrou as diferença entre as padarias do início do século passado e as padarias e confeitarias: esse segundo tipo de estabelecimento pagava de 3 a 4 vezes mais impostos que a padaria, e sua frequência era de famílias, enquanto nas padarias a permanência era predominantemente masculina.

O terceiro e último dia do seminário começou com a mesa “Questões alimentares da modernidade”. Isabel Drummond Braga (Universidade de Lisboa) falou de paremiologia, que é o estudo dos provérbios, para observar a presença dos peixes na dieta portuguesa moderna. Denise Bernuzzi de Sant’Anna (PUC-SP) usou documentos oficiais e reportagens da imprensa para discutir o medo de adulteração e a fiscalização do leite na transição do século XIX para o XX. A historiadora deu também uma boa dica: as atas da Câmara Municipal de São Paulo acabaram de ser digitalizadas e disponibilizadas online, o que facilita o acesso para pesquisadores. Maria Cecília Pilla (PUC-PR) apresentou pesquisa sobre periódicos femininos: como e por quem eram feitos, que tipo de conteúdo era apropriado e qual era o papel da alimentação nesses veículos. A pesquisadora mostra que anedotas, a ausência de política e a presença de dicas e receitas para a alimentação da família têm o potencial de indicar o papel social da mulher na época na primeira metade do século XX. Henrique Carneiro (USP) fez uma comparação entre os modelos regulatórios do álcool no Canadá e nos Estados Unidos: enquanto ali houve a proibição da comercialização e de todo consumo público, no Canadá havia o monopólio estatal de distribuição e a permissão de um consumo supostamente privado em alguns locais públicos, como hotéis. O pesquisador explicou como isso inaugurou, nos Estados Unidos, uma nova fase de crimes e do poder coercivo do estado na instância privada, enquanto no Canadá gerou o aumento da arrecadação fiscal e uma relação menos conflituosa com esse tipo de substância.

A última mesa do evento foi “Refeições e maneiras à mesa”. Eliane Morelli (Unicamp) falou sobre o papel das refeições na política brasileira na República Velha. Luciana da Silva (Unicamp) relacionou artefatos têxteis, como toalhas e guardanapos,  à noção de limpeza e civilidade nas mesas da América Portuguesa nos séculos XVII e XVIII. Leila Algranti (Unicamp) encerrou a mesa discutindo a circulação e os significados da posse de determinados objetos de luxo destinados ao serviço de mesa, na Corte Joanina, no início do século XIX. O que veio de Lisboa para o Brasil, e o que foi deixado no Rio de Janeiro na volta da família real para Portugal mostra usos caseiros e cerimoniais desses artefatos, seu prestígio e importância, e mesmo uma esperança de que, no futuro, os dois reinos voltassem a se unir.

O evento teve auditório cheio nos três dias, e foi permeado por muitas perguntas dos participantes aos palestrantes, além de um interesse realmente grande pelos diferentes aspectos das materialidades presentes na produção e distribuição dos alimentos, nos hábitos alimentares e nos comportamentos à mesa. O conjunto de temas e de participantes mostrou não apenas como a alimentação já é, hoje, um importante foco da historiografia no Brasil, mas como há interesse por parte de outras áreas do conhecimento nessa discussão.

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